29 junho 2011

Entrevista - 1930: Os Órfãos da Revolução


Há dez anos, o jornalista Domingos Meirelles lançou As noites das grandes fogueiras, um livro sobre as andanças da heróica Coluna Prestes pelo Brasil – trabalho que lhe tomou 20 anos. Material para seguir adiante sobre este período da História do Brasil, Meirelles tinha de sobra. E, mais que isso, desejava conhecer e contar o destino dos principais protagonistas da Grande Marcha que percorreu o Brasil pregando reformas políticas e sociais. Imediatamente, o jornalista pôs mãos à obra. Entre outubro de 1995 e agosto de 2005, consultou milhares de jornais e documentos, conversou com historiadores e vasculhou bibliotecas, arquivos públicos e acervos particulares no Brasil, na Argentina, Bolívia e Uruguai. Em seu trabalho de garimpagem de informações, Meirelles reencontra os tenentes em um acampamento de La Gaiba, na selva boliviana, e mostra a tristeza e as humilhações que passaram durante o exílio. Na reconstrução da vida dos rebeldes, o jornalista foi desvendando uma história verdadeira de conspiração, intriga, disputa pelo poder e cooptação de inimigos através de vantagens e bens – o que, é claro, acaba nos remetendo à crise política atual – para depor o presidente Washington Luís já no fim do seu mandato. Tudo isso é relatado em 1930: Os órfãos da Revolução, que Domingos Meirelles lança pela Editora Record. “Eu tento explicar por que, depois da morte, do luto, e de todas as violências que sofreram, os tenentes das revoltas de 1922 e 1924, que pregam a moralização da política, se associaram, em 1930, aos seus piores algozes, representantes de setores da oligarquia dominante, para derrubar o presidente da República. Luís Carlos Prestes, líder da Grande Marcha, chegou a dizer que todos haviam sido comprados”, explica o autor, que expõe visceralmente as artimanhas para o controle político da Nação. Envolvendo o leitor com minúcias do dia-a-dia dos últimos anos da década de 1920, Meirelles conta o retorno clandestino dos rebeldes ao Brasil, o envolvimento deles com a Aliança Liberal, coligação pela qual Getúlio Vargas saiu candidato a presidente da República em 1930, e o trabalho de articulação do golpe que levaria Washington Luís ao exílio.

  • Quem são os Órfãos da Revolução?
 São todos aqueles que apostaram nas revoltas tenentistas e acabaram vivendo na miséria no exílio. Apontados pela população como exemplo de coragem e honradez, o apoio desses rebelados acabou se tornando fundamental para que a Aliança Liberal derrubasse Washington Luís. Esses tenentes foram cooptados pela Aliança, recebendo em troca de apoio casas, vitrolas e discos, por exemplo, o que fez Luís Carlos Prestes dizer, anos mais tarde, que haviam sido comprados. Para negociar com esses rebelados, Vargas — então presidente do Estado do Rio Grande do Sul – dava passaportes falsos para que entrassem no Brasil. Eles ainda contavam com a proteção das polícias estaduais para não serem descobertos pelo Exército, que os procurava.

  • Prestes não está entre esses “órfãos”?
Prestes chegou a ser convidado a participar das articulações para tirar Washington Luís da Presidência da República. Ele teve dois encontros clandestinos com Getúlio Vargas – um no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, e outro na Chácara Tristeza, propriedade de Oswaldo Aranha –, mas não chegaram a um acordo. Em maio 1930, com a morte de Siqueira Campos – um dos líderes tenentistas –, Prestes divulga um manifesto rompendo com a Aliança Liberal, alegando que ela atende aos interesses da burguesia dominante. Logo vem a retaliação. Prestes, que era um mito, é quase esconjurado. Uma das formas que encontraram para denegrir sua imagem foi associá-lo ao “credo vermelho”, ao comunismo. Era preciso apequenar ou desqualificar o discurso dele, dizer que ele havia sido comprado pelo “ouro de Moscou”, porque isso assustava o povo. Mas o apoio de Prestes era muito importante para a revolução, ele era muito conhecido entre as pessoas do interior, por onde passou a Coluna. Então, em alguns estados, associaram de forma mentirosa seu nome à revolução liderada pela Aliança Liberal. Para o homem do campo, que não tinha acesso a informações dos jornais, era Prestes quem conduzia a revolução. Neste livro, que é uma continuação de As noites das grandes fogueiras, eu vou mostrar o ocaso de Prestes.

  • Apesar de não-ficção, o livro consegue dar uma dimensão humana aos personagens históricos. O que o fez contar a história desse jeito?
Eu me interessei pela Revolução de 1930 não só como resultado de um emaranhado de forças políticas, econômicas e sociais, mas como um evento humano muito complexo. E queria contar essa história, permitindo ao leitor fazer uma reflexão sobre os episódios que eu fui garimpando. Não sou como os historiadores, que já têm uma proposta, uma tese, e acabam desencarnando a figura histórica. Então, busquei aproximar os personagens do mundo do leitor, contando minúcias sobre a época. Os personagens passaram a ser pessoas como eu e você. São de alma, carne e osso, têm vícios e pecados. Assim, tento criar laços de cumplicidade com a leitura. Não quero que a pessoa leia apenas a história, quero que o leitor se envolva, que ele sofra com os dramas de Luís Carlos Prestes, por exemplo, a maneira como ele foi tratado, submetido a toda a sorte de infâmias.

  • Mas, afinal, a queda de Washington Luís foi revolução ou golpe?
O que houve em 1930 foi um golpe de Estado. Na verdade, foram dois golpes. No dia 3 de outubro, é deflagrado o primeiro golpe com tropas regulares – Polícia Militar – no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. O povo não pegou nas armas. No dia 24, ocorre outro golpe, quando a guarnição do Rio de Janeiro cerca o Palácio Guanabara e os fortes e ameaça atirar se Washington Luís não renunciasse. Uma junta, com três militares de alta patente, vai até o presidente comunicar que ele não é mais o chefe da Nação.

  • Por que voltar a essa análise política da década de 1920, que começou em As noites das grandes fogueiras?
O trabalho todo foi centrado na década de 1920, até culminar no golpe de Estado de 1930, porque é uma das décadas mais exuberantes da História Mundial. Vivia-se na época os reflexos do fim da Primeira Guerra Mundial, da Revolução Russa, tivemos o declínio do imperialismo inglês, a ascensão do imperialismo americano. É uma época de intensa efervescência mundial, o operário é culto, o operariado se organiza, é um momento de inclusão social. Mostro isso no livro, falo sobre os anarquistas, a comoção pela morte na cadeira elétrica, nos Estados Unidos, de Sacco e Vanzetti, insiro o leitor no que ocorria no mundo na época. E termino o livro com o Washington Luís no navio, sendo levado expatriado para a Europa, porque tinha que pôr um ponto final, mas tenho muito mais histórias para contar. Agora, pretendo fazer um livro sobre a Revolução Paulista de 1932, porque estou convencido de que ela começa em outubro de 1930, quando os gaúchos
impedem que o professor Francisco Morato assuma o governo de São Paulo.

  • “A notícia chegou como o vento que antecede as tormentas em mar aberto. Ao tomar conhecimento, pelo jornal de bordo, que Júlio Prestes seria deportado, Washington Luís ‘mudou inteiramente’ de figura. Agitado, olhar distante, parecia mover-se sob o impulso das velhas lembranças”. Como foi possível descrever com tantos detalhes a viagem de expatriação de Washington Luís?
O jornal A Noite fez uma das coisas mais sensacionais do jornalismo brasileiro. Mandou no mesmo navio que seguia com Washington Luís para a Europa um repórter, o Manuel Bernardino. E é ele quem vai relatando como transcorre o “funeral político” do presidente a bordo. Isso me permitiu contar a viagem do presidente deposto.

Era vargas por Boris Fausto